terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Suspiro...

Porque o desespero já não a deixava pensar resolveu saír e andar. O vento frio haveria de lhe fazer bem. Aliás o frio sempre lhe fazia bem. O frio da água. O frio dos dias de inverno, pela manhã. O frio das noites de saír à noite em tempo de aulas. Pequenos prazeres só dela que não explicava nem queria partilhar. Andava farta de partilhar, de fazer concessões. Não queria mais saber dos desejos dos outros, do que os fazia sentir bem. Nem mesmo para conseguir paz. Afinal de contas, percebia-o agora, só nos temos a nós mesmos. Confidências a quem quer que fosse davam sempre mau resultado. Abrir o coração era tudo menos libertador. Tudo o que dizemos pode, e será, usado contra nós. Mesmo que o uso seja apenas aquela incerteza sobre se o confidente não estará a ver-nos sempre à luz daquela confidência fortuita. Ah como ela odiava aquela sensação de que alguém sabia coisas sobre ela. Coisas... leiam-se fraquezas. Ela não era fraca. Era apenas carente, como os outros. Mas andava a trabalhar nisso. A trabalhar para se libertar, para não precisar mais dos outros. Não que não pudesse dar mas dispensava receber se fosse como troca. As trocas eram sempre desiguais. Desesperava com isso mas não as via de outra forma. Mal dela que quando dava dava tudo. Não sabia ser de outra forma. Quando gostava, gostava muito. Quando não gostava, não gostava nada. Sempre nos extremos, sempre no exagero, mas nunca no limite - o que de alguma forma também tirava brilho a essa arrogância. Lutava para mudar também essa característica que os outros adivinhavam, criticavam e usavam. Como se a opinião deles valesse alguma coisa! Como se eles fossem realmente entendidos no que quer quer fosse, quanto mais em natureza humana. Ou melhor, na natureza dela.
Amava-o. Ainda. Deitava-se com ele no pensamento e acordava liberta. Mas, reencontrava-o em cada manhã com a memória, que imediatamente a assaltava, do que poderiam ser e fazer... se estivessem juntos. Mas não estavam, nunca tinham estado e, parecia, nunca estariam. Não estava absolutamente certa mas o seu coração dizia-lhe que ele nunca iria ser dela, mas também lhe dizia que ela iria ser sempre dele. E a vida dela estava assim, presa. Esta revolta contra o mundo e contra os outros, (o resto do mundo, bem entendido) vinha daí. Do desespero de o querer e não o ter. De o amar e de o detestar, porque ele não a amava de volta. Porque nunca lhe dava certezas. Precisava delas para se sentir bem, para poder respirar sem medo. Ai o medo... o medo tornara-se uma constante na vida dela. Medo de ficar sozinha, medo de não ter quem cuidasse dela, medo de não ser capaz de resolver tudo, medo de ter medo, medo do medo... e fora por medo que ficara sozinha e era por medo que agora tinha medo. As certezas são díficeis. E com o passar do tempo, da idade, ficavam ainda mais díficeis. Para se ter certeza é preciso saber o que quer de verdade, para depois nos agarrarmos a esse querer. Mas e ela querê-lo-ia mesmo? Não sabia. Nem nunca soubera. A relação de ambos não começara como as outras. Nem sabia bem quando se tornara uma relação. Mas sabia que era uma relação. Tinham andado sempre em velocidades diferentes. Primeiro ele mais rápido e ela a pisar com cautela, mais impelida pelas exigências dele do que que pela sua própria vontade. Depois forçara os acontecimentos para andar mais depressa, obrigara os outros a decidirem por ela. Fizera-os sofrer para que acabassem com o sofrimento dela. Então porque é que não acabava? O sofrimento dela? Caramba sentia-se tão enganada, tão triste e violentada, porque ele agora andava devagar. Ás vezes nem andava. Não tinha memórias boas. Não conseguia lembrar-se de um único momento bom. Só daquela aflição no peito. Daquela sensação criminosa de que magoara quem não merecia para obter satisfação para si. E nem sequer tinha valido a pena. Não conseguia deixar de olhar para trás. E para a frente não olhava mesmo. No presente vivia suspensa, alimentava-se de momentos pequeninos de alguma clareza, mas estes não chegavam, eram mesmo um antídoto muito fraco. O pior de tudo era saber que não conseguia libertar-se, que em cada dia se voltava a enrolar à volta de um desejo amargurado, contido à força, nunca revelado, mas tão completamente óbvio e envergonhado. E esperava, esperava todos os dias, mais de manhã do que há tarde. Porque de manhã a presença dele era garantida (ou quase), e à tarde nem sempre o via. E hoje sentia-se, ainda mais do que ontem, vítima desta paixão corrosiva. A esperança não morria, mas a fé há muito tempo que se desvanecera. E esperança sem fé resulta em nada. Já tentara fabricar essa fé. Tentara tanto, mas sentia-a falível, tonta acima de tudo. Porque a fé move montanhas, mas não destas, que não querem ser movidas...

*
Gostava de ter contado como foram os dias para trás deste mas o devaneio em que se encontrava não lho permitira. Estranhamente nunca conseguia escrever as partes boas. Como se ao registá-las alguma mácula lhes pudesse acontecer. Foram dias de glória, de um contentamento que não parecia nada seu. Felizmente que os aproveitara, porque lhe deram uma tranquilidade há muito esquecida e tão benfazeja. Mas foram, assim passado, uns dias apenas. Quase pareciam o começo de uma coisa boa que iria durar para sempre – ela gostava tanto das coisas que duravam para sempre... – mas não. Foram, mais uma vez, um sonho fortuito, uma lomba na estrada do desespero que insistia em trilhar. Ainda e sempre permaneciam as dúvidas. Que raio era aquilo? Que relação era aquela? Como é que podia saltar de uma felicidade tão embriagada para um desespero tão profundo que nem os piores acontecimentos da vida dela alguma vez lhe tinham provocado? Não sabia. Apenas podia descrever o que sentia, quando sentia. As memórias das coisas boas eram invariavelmente tocadas pelos desassossegos do presente e nunca ficavam tão bonitas como no dia em que tudo acontecia. Por isso não as podia contar. Talvez da próxima vez, pensou e permitiu-se sorrir...

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Hoje, outra vez, resolucionara-se a esquecê-lo, a deixá-lo, a fugir-lhe pelo menos. Mas, continuava a olhar para o telefone como se o pudesse fazer tocar, ao mesmo tempo que prometia uma e outra vez que não, não o atenderia. E no entanto sabia que não seria capaz. Ansiava pela voz dele como um bêbado crónico anseia um copo de vinho. Só conseguiria manter-se sóbria se ele não fizesse nada, porque todas as suas forças eram gastas em manter-se calada, em não lhe dizer nada, em se suster.
Fora de novo humilhada. Mais do que antes porque tinha acreditado que desta vez estava controlada. Que tolice. Estava ainda mais frágil e o choque da decepção fora ainda maior do que os outros. Nem podia respirar de tão zangada, ferida e triste. Pior, de tão incapaz de se zangar à séria e se libertar, porque mantinha aquela sempre inabalável esperança de que ainda lá podia chegar, e não queria afugentá-lo. E aqui estava mais um princípio errado... se não podia nunca ser ela própria, completa, por medo de o melindrar, que tipo de vida seria a sua? A que tinha, má... Mas é tão dificil ser forte quando se ama aquilo que mais nos faz sentir fracos. Só queria que acontecesse aqui uma coisa bonita, agora, pensou. As imagens da véspera voltaram a atormentá-la de repente. O frio da rua, o receio de conduzir por caminhos que conhecia mal, as pessoas estranhas que passavam por ela parada à espera. E a chegada dele, rodeado de pessoas que não tinha vontade de entreter naquela noite. Parva tinha pensado que podia tê-lo só para si, por mais tempo do que o costume, aquele ele que ele era só com ela, calmo e tranquilo, que a ouvia mais do que o habitual. Que chegava a ser doce, que sorria e não inventava ser mais do que ele mesmo. Queria tanto tê-lo assim umas horas mais. Só para si. E ele caíra nas armadilhas do costume. Fascinado outra vez com mais um falso ídolo. Cumpriu os passos todos da quase demente animação estéril que lhe provocava a atenção dos que o ultrapassavam. ‘Não vendas a alma ao diabo’ pensava ela sempre que isso acontecia. Ainda assim sabia que apenas o satisfaria se concordasse com tudo e fingisse um contentamento igual ao dele. Acabava por fazê-lo, não queria ser posta de parte, mas de cada vez morria mais um bocadinho.